sexta-feira, 30 de julho de 2010

AUTORES CONTEMPORÂNEOS


TRÊS VEZES OITENTA
José Neres


            Em 1930, o mundo vivia a emoção da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, mas também  se despedia de algumas pessoas que muito contribuíram para a cultura, como é o caso de Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes; da poetisa Portuguesa Florbela Espanca e do grande escritor inglês D. H. Lawrence.  No meio de uma grande crise política,  Getúlio Vargas, após um golpe de estado, assumia o poder, e, no mesmo ano, o mundo das artes recebia de presente a chegada de alguns nomes que iriam deixar suas marcas pelas décadas seguintes, como é o caso dos atores Sean Connery, Clint Eastwood e Jece Valadão, Lima Duarte e Carlos Zara, do cantor e compositor Ray Charles, do apresentador Silvio Santos, do jornalista Paulo Francis e da escritora Hilda Hilst.
            No Maranhão, governadores entravam e saíam do poder de maneira vertiginosa. No mesmo ano, o Estado foi governado por Magalhães de Almeida, que chegava ao fim de seu mandato, José Pires Sexto, José Luso Torres e José Maria dos Reis Perdigão, além de uma Junta Governativa que tomou as decisões administrativas por aproximadamente cinco semanas. É nesse tumultuado contexto histórico e político que nascem três dos principais intelectuais maranhenses, que, neste ano de 2010, comemoram, de forma totalmente lúcida, a oitava década de vida: José Sarney, Ferreira Gullar e Ubiratan Teixeira.
            Veremos a seguir, por ordem de nascimento,  um pouco da produção intelectual desses três senhores que sempre ilustraram nossas letras com a vivacidade de seus traços e com a força de suas palavras.
           
SARNEY EM PROSA E VERSO
           
            Quem não está acostumado com o estudo da história literária, pode imaginar que José Sarney seja um político que se fez escritor, mas um olhar um pouco mais atento mostra claramente que, na vida de Sarney, a literatura chegou primeiro e somente anos depois teve suas atenções divididas com a arte da política.
            Em 1954, com apenas 24 anos, José Sarney fez sua estreia literária, com o lançamento de A Canção Inicial, um livro dividido em três partes: canções, baladas e outros poemas. Nas três partes do livro há o marcador temporal de 1948, quando o escritor contava, portanto, com somente 18 anos de vida. Ainda fortemente influenciado pela linguagem parnasiana, mas tentando alçar voos mais amplos, o livro traz uma mescla de lirismo e telurismo, com incursões pela abordagem social, como é o caso do belo poema Menina Morta, de grande profundidade imagética, praticamente uma tela impressionista pintada com palavras.

A pura carícia de olhos virgens
para o sol, árvores cantando, a ternura
está ausente
no frio corpo da morte
levada pela vida
que levaram.

Espantem os carcarás
seus bicos não biquem
os olhos da menina.

A paisagem ardente de sol e fome.
Há nas sombras que caminham
pesadas luas de suor e sede.

            Mas o reconhecimento nacional de José Sarney como escritor só apareceu quando ele já era apontado por todos como um dos grandes políticos brasileiros, daí o equívoco de pensar que o escritor veio na carona do homem público. O reconhecimento veio com a publicação de Maribondos de Fogo, no final da década de 70, um livro mais maduro que tentava enlaçar temas regionais com um sopro de universalismo e que já trazia em seus versos um projeto de transformar as experiências de vida em versos, imagens guardadas na memória em estrofes e o insondável desvão da memória em poesia.
            Paralelamente às atividades políticas e poéticas, Sarney também cultivou o hábito de escrever em prosa. Primeiro vieram os contos que deram origem aos livros Norte das Águas, Brejal dos Guajas e 10 Contos Escolhidos. No começo da década de 90, os leitores tiveram outra surpresa: o lançamento de O Dono do Mar, o primeiro romance de autoria de José Sarney. As aventuras de Mestre Antão Cristório mostraram que Sarney tinha fôlego para engendrar uma narrativa que fosse além das breves páginas de um conto. A seguir veio outro sucesso: Saraminda, a bela prostituta que, além de ter os bicos dos seios revestidos a ouro, também tinha o poder de voltar a ser virgem cada vez que se apaixonasse. Mais recentemente, veio à luz também A Duquesa Vale um Missa, romance no qual um rapaz se apaixona pela imagem de uma bela mulher que está pintada em um quadro.
            Além da poesia e da prosa, Sarney também investe nas pesquisas e em produção de artigos que são reproduzidos semanalmente em diversos jornais e que posteriormente são enfeixados em livros com temáticas voltadas para uma visão global do momento histórico e político em que foram escritos os artigos.
            José Sarney chega a seu 80º ano de vida (completado em 24 de abril de 2010) com a carreira política reconhecida e solidificada, mas sendo também visto como homem ligado às letras, sejam elas em prosa ou em verso.


GULLAR: O SELF MADE POÉTICO

            Ferreira Gullar é um poeta que parece ter levado a sério uma das estrofes de seu livro A Luta Corporal, quando ele diz que:

Caminhos não há
Mas os pés na grama
Os inventarão

            Realmente, quando ele saiu de sua terra natal, antes de completar vinte anos, parecia que não haveria caminhos a escolher, nem mesmo uma vereda por onde seguir. Mas com os pés, com as mãos, com as palavras e, principalmente, como sua inteligência aguda, conseguiu abrir os caminhos por onde faz desfilar diante dos olhos de seus admiradores sua trajetória de sucesso.
            Às vésperas de completar oitenta anos, o poeta é agraciado com o Prêmio Camões, que vai se somar às dezenas de outras conquista do escritor maranhense que enfrentou dezenas de obstáculos e perseguições de caráter político-ideológico até se tornar um dos mais reconhecidos intelectuais do final do século XX e início do Século XXI, como pode ser visto em sua autobiografia intitulada Rabo de Foguete – os anos do exílio.
            Compositor, crítico de arte, poeta, tradutor, ensaísta, jornalista, cronista e teatrólogo, Gullar começou sua carreira com um livro que ele mesmo renegou – Um Pouco Acima do Chão – publicado em São Luís do Maranhão, em 1949, ainda na juventude do poeta, e alcançou a notoriedade com Poema Sujo, um a obra única das letras brasileiras, na qual o grito de um exilado se faz ecoar pelas páginas de um desespero de um homem que encontra na poesia o elo entre a realidade do exílio e o desejo de voltar a sua pátria, nem que seja por meio de lembranças que se tornam mais vivas a cada verso construído. Há houve inclusive quem dissesse que Poema Sujo é a Canção do Exílio dos tempos da ditadura, tal sua profundidade conteudística e sua força imagética entremeada de uma excelente urdidura poética.
            Nos longos cabelos prateados, nos versos e na produção intelectual de Gullar pode ser encontrada grande parte da recente história literária do Brasil, desde as experiências com as vanguardas até incursão pelo campo da literatura de cordel. Poeta combativo e engajado com as causas sociais, ele consegue retirar do cotidiano a seiva com a qual dará vida a sua produção poética. E é capaz de ser extremamente lírico, como ocorre na conhecidíssima Cantiga Para Não Morrer, que foi recentemente musicada e gravada pelo cantor Raimundo Fagner:

Quando você for se embora
moça branca como a neve,
me leve

Se acaso você  não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

            Mas também é capaz de ter a contundência verbal do início do poema Bomba Suja, no qual denuncia os mandos e desmandos que fazem com que o trabalhador passe fome no Brasil e que não possa usufruir do fruto do próprio trabalho:

Introduzo na poesia
a palavra diarréia,
não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo
quem fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarreia
é arma que fere e mata.

            Aos oitenta anos a serem completados em setembro de 2010, a força poética de Gullar parece se multiplicar a cada página e ganhar outras dimensões que vão além das palavras no papel. Sua poesia é a essência da vida transformada em palavras.


UBIRATAN TEIXEIRA NO PALCO DA VIDA

            Outro escritor maranhense que está prestes a chegar à casa dos oitenta anos é o contista, teatrólogo, cronista e prosador Ubiratan Teixeira. Algumas fontes o colocam como nascido em 1930, outras em 1931, mas qualquer que seja a data exata, ele é merecedor das homenagens que receber.
            Neste ano de 2010, o escritor foi homenageado com uma nova edição de um de seus pais expressivos contos: Velas ao Crucificado, que também já foi adaptado para o teatro pelo engenhoso intelecto de Wilson Martins e em curta metragem pelo talento incontestável de Frederico Machado.
            No conto, uma família pobre se vê às voltas com um problema extremamente sério: a morte de um dos filhos e a dificuldade em fazer um enterro digno para a criança. Os pais lamentam o ocorrido e convivem com a falta de solidariedade e com as cobranças das pessoas que exigem ações que vão além das forças pecuniárias da família. O tom da narrativa escapa à pieguice e mostra de forma fria a essência humana.
            Dono de um estilo vigoroso e ágil, Ubiratan Teixeira percorre com desenvoltura as trilhas de diversos gêneros literários, do conto à novela, passando pela arte dramática e pelos textos voltados para o público infanto-juvenil. Sobrando tempo e disposição ainda para disponibilizar aos estudiosos do teatro parte de seu vasto conhecimento sobre o assunto, como acontece com seu Dicionário de Teatro, um livro essencial para quem deseja imiscuir-se pela prática e pela teoria do fazer teatral.
            Como cronista, Ubiratan Teixeira vem há décadas oferecendo a seus leitores lições de como deve ser escrita uma crônica a partir de acontecimentos aparentemente fortuitos para a maioria das pessoas, mas que não passam de forma despercebida pelo olhar treinado e pela sensibilidade aguçada de quem tem de tirar, quase que diariamente, dos fatos banais a matéria para seus textos. Revoltado com os descasos por que passa a cidade, o escritor se torna o porta-voz de grande parte da população que não tem como expor para o grande público seus desejos e anseios. Então ao ler a mescla de ironia, acidez e indignação que Ubiratan destila em seus textos semanais, o leitor, sente que há alguém que o defende e que fala por ele. O próprio autor, na orelha de seu livro Pessoas explica seu estilo quando diz que:

Das reportagens, das crônicas peraltas e das refregas com a capangada vitorinista foi nascendo o ficcionista. (...) Pobre de bens materiais que sempre fui, que venho de uma tribo sem posses e não poderia jamais, de repente,  aparecer proprietário e dono de tesouros. E essa pobreza evangélica é responsável por essa forma rude  do meu viver sombrio, essa maneira bisonha de encarar o mundo e ser solitário, o humor corrosivo, que me deixa à margem de todos e confere essa forma amarga de reproduzir a humanidade.

            E é para dar voz e vez para esse povo sofrido que sofre calado que Ubiratan Teixeira faz seus textos literários centrados em pessoas comuns, em personagens que sofrem e que têm consciência do próprio sofrer, consciência da angústia que engloba a todos em um mesmo lodaçal de miséria.
            Ao longo de sua trajetória de várias décadas de contato com as palavras escritas, o autor da instigante novela O Banquete, não cruzou os braços para apenas ver os acontecimentos passarem a sua frente. Ele preferiu arregaçar as mangas da camisa e pôr seu talento em prol do que ele considera correto e justo. Em suma, ele não lavou as mãos diante das injustiças que presenciou ou das quais teve provas. No lugar do silêncio conivente, UT soltou a voz da revolta em forma de peças, contos, novelas ou artigos. E, em breve chegará aos oitenta anos, olhará para trás e terá a certeza de que não viveu oito décadas em vão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

CONTOS EM DUAS LETRAS

 Na falta do que fazer, surgem algumas brincadeiras com a linguagem, como, por exemplo, os dois continhos que seguem. Espero que gostem...
 

VIRGEM VIOLENTADA
 José Neres

Fonte imagem: http://surtocoletivo.files.wordpress.com/2009/08/abuso_sexual1.jpg?w=250&h=383
            - Vô Valdemar, Vitório violentou Virgínia!
            - Viche! Verdade, Valberto ?
            - Verdade verdadeira, vovô! Vicente viu.
            - Vamos ver. Vizinhança vem vindo. Vamos, Valberto.
            - Vamos, vovô!...

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            Várias vezes, Vovô Valdemar vira Virgínia varrendo varanda. Vestidinho vermelho, velhinho... Vendendo vitalidade. Virgínia valorizava virgindade, vivia vangloriando-se: “Vivo virgem, valorizo-me.”
            Verdadeiro voyeur, Vitório vigiava Virgínia. Violentava-a visualmente. “Vou ver Virgínia varrendo. Voltarei.”
            Vicente, vagabundo velhaco, vaticinou: “Vai violentá-la. Vou ver, vou ver...” Vicente viu.
            Vestidinho vermelho, Virgínia varria varanda. Vitório vinha vindo. Virgínia virou-se, viu Vitório violentamente vencê-la, virá-la, violentar-lhe ventre virgem, verter vertiginoso vômito viril.
            Vicente viu Virgínia vestir velhíssimo vestido vermelho. Virgínia Voltou. Vicente viu vidro. Viu veneno. Viu Virgínia, vermelha, vomitar verde vômito. Vicente viu vida vazia.



COLEGAS
José Neres

Célio Costa conheceu Cristiane Castro comprando calcinhas. Começaram conversando, combinaram comer camaroada. Comeram. Conversaram. Conquistaram-se. Começaram comprar coisas: copos, colheres, colchas, cobertores, cama...
Casa comprada, casaram-se.
Célio Costa começou comparar Cristiane Castro com Carlinha, colega conversadeira, comprometida com Carlos Custódio, cognominado Carlão, conhecido comerciante carioca. Carlão comercializava cocaína, crak, canabis...
Carlão começou com ciúmes.
Célio comentou com Carlinha. Carla contrapôs:
- Como ciúmes? Carlão confiava cegamente.
Contudo Carlão considerando-se corno, convocou curriola, combinou castrar Célio, caso confirmasse corneação.
Começou caçada.
Célio Costa conversava com colegas, comia codorna. Comemorava campeonato com cerveja, cachaça, conhaque. Chegou Carlão com canalhada. Carlinha conversava com Célio.
Correria.
Célio cai. Carlão com cutelo corta-lhe calça. Célio chora. Com calma, Carlos Custódio corta-lhe caroços.
Chega Cristiane. Corajosa, corre contra Carlão. Chora. Curva-se, chora:
- Covarde, covarde, castrou Célio, covarde!
Carlão corre.
Célio, castrado, chorava.

domingo, 25 de julho de 2010

MUNDO MODERNO

fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_U7BfZD3HJGM/S7FC5lbLzdI/AAAAAAAAG4k/9F0x3LtOeh8/s1600/ideias.bmp


UMA TELA, UM TECLADO E A SOLIDÃO

José Neres


            O educador português Roberto Carneiro defende a ideia de que vivemos hoje o momento da morte do tempo e da distância. O sociólogo espanhol Manuel Castells lembra em seus trabalhos que estamos em uma sociedade em rede, com a internet tornando-se a cada dia mais importante na vida de todos. O pensador polonês Zygmunt Bauman alerta sobre a liquidez das relações na sociedade contemporânea. O que parece apenas um amontoado de teorias, sai do âmbito acadêmico e invade a cada dia nossa realidade e se torna evidente em todos os lares.
            Uma tevê enorme ocupa o lugar de destaque em nossa sala. As pessoas, mudas entre si, convergem o olhar rumo à tela iluminada. O silêncio de palavras parece não incomodar tanto as pessoas que, quando ligam o aparelho televisivo, parecem desligar automaticamente o senso crítico e convertem um entretenimento, que deveria ser momentâneo, em razão principal da vida.
            Em seu quarto, isolado da família e do mundo, um adolescente se diverte com as inúmeras possibilidades do videogame. A cada temporada, uma nova versão do jogo faz acender o desejo de atualizar um acervo que nunca satisfaz ao seu proprietário. Perdido no meio de milhões de cores e de imagens altamente elaboradas, o jovem não vê a vida passar, não percebe que não é apenas lá fora que o tempo está passando.
            Em outro cômodo da casa, um garoto, uma garota, um adulto ou mesmo uma pessoa que beira ou já frequenta chamada terceira idade, mantém uma animada conversa online com seus amigos virtuais. Às vezes, na solidão de um quarto, a pessoa conversa com alguém que esteve a seu lado o dia inteiro, mas não recebeu nem mesmo um simples bom dia. As amizades virtuais ganham a cada dia uma importância maior que o sorriso franco, um abraço fraterno ou um aperto de mão. A intermediação de um computador conectado à grande rede tem o poder de transformar pessoas frágeis em verdadeiras máquinas de conquista, de diálogos cifrados, nem sempre inteligíveis.
            Com a popularização dos computadores portáteis (netebooks e notebooks), os trabalhos inacabados, que antes ficavam no escritório, agora são levados a tiracolo para casa e chegam mesmo a dividir espaço com pratos, copos e talheres na mesa de jantar da família. As conversas do dia são substituídas pela mudez de quem se divide entre os alimentos e as tarefas que devem ser concluídas antes de outro turno de trabalho começar oficialmente. Tudo isso sem se dar conta de que hoje as jornadas laborais não têm mais começo nem fim, apenas um todo contínuo que se mistura com a própria noção do viver.
Imagem retirada da internet 

            No império do LCD, até as imagens fotográficas, que antes serviam para recordar os bons momentos da vida, agora têm como função principal alimentar as páginas de relacionamento. Mas não se trata apenas de uma substituição de suporte – do papel para o computador – e sim de uma narcisística mudança de atitude, em que a vida tem de ser exposta não apenas com o fim de mostrar por onde o dono do perfil passou, ou o que fez, mas sim para despertar o desejo ou a inveja em outros que não tiveram as mesmas oportunidades, que, por sua vez, respondem postando fotos que mostram que também estiveram onde o outro não pôde estar, e assim uma silenciosa batalha de imagens de desenrola no universo virtual.
            Nas páginas de relacionamento, o número de amigos virtuais torna-se um termômetro de uma popularidade que às vezes não tem correspondência no mundo real. Os mil e tantos “amigos” conquistados por uma simples mensagem pedindo para ser adicionado nem sempre estão disponíveis para ouvir (ou ler) as queixas e as dores de alguém trancando em um quarto e que nem sempre tem coragem de abrir a porta e conversar de verdade sobre seus anseios com as pessoas próximas.
            No mundo contemporâneo, no qual a instantaneidade se tornou o foco das relações, o homem conseguiu diminuir os espaços, modificou a noção de tempo e se conectou ao mundo por meio de aparelhos portáteis (de preferência sem fios), mas também entrou no paradoxo de sentir-se sozinho no meio de uma multidão de outros solitários sentados diante de uma tela.
E-mail: joseneres@globo.com


terça-feira, 20 de julho de 2010

ARTIGO DE HAGAMENOM DE JESUS

É tão raro encontrar quem faça crítica literária em nossa terrinha, que não posso me furtar a reproduzir aqui o texto do poeta e ensaísta Hagamenom de Jesus sobre um de meus livros. O artigo saiu em um jornal de nossa capital, infelizmentente não tenho a referência exata. Assim que souber acrescentarei, para respeitar o trabalho do jornal. Boa leitura a todos e nosso muito obrigado ao autor do texto.




50 PEQUENAS TRAIÇÕES: SURGE UMA PROMESSA
NO ÂMBITO DA NARRATIVA CURTA

Hagamenom de Jesus
Poeta Maranhense

Qualquer pessoa que goste de literatura fica feliz quando imagina que um autor começa a se encontrar nos objetivos que buscava, quando principia a achar a sua melhor forma de expressão, as características que lhe são próprias e o gênero em que se ache mais à vontade. Acredito que com o livro 50 Pequenas Traições José Neres conseguiu isto.
Autor que publica com constância desde a sua estréia com Negra Rosa e outros Poemas (1999), José Neres tem livros em diversos gêneros literários, tais como poesia, ensaios, teatro e, desde 2006, contos. E os livros de ficção deste autor, até o lançamento de 50 Pequenas Traições, sempre me satisfizeram, mas apenas em parte. É que com este livro, a meu ver, o autor achou o melhor de si: humor, lirismo e uma bem sutil pitada de drama e erotismo. O livro, escrito no melhor estilo da despretensão (mas sem ser descuidado), trata do imemorial tema do adultério, das fabulosas, e “sempre edificantes”, estórias de corno.
Tema recorrente na literatura de todos os tempos, como bem destaca José Neres no início do livro, o autor, no entanto, situa todas as suas estórias muito bem ambientadas no momento atual. Ele consegue pôr em cena, de maneira simples, sem chatice, aquelas pequenas situações e dramas que sempre colocam na sua cabeça. É o marido, cotidianamente esfalfado pela imensa carga de trabalho, que não percebe como os óleos aromáticos colocados pela sua mulher vão se transportando para o corpo do vizinho. É a mulher, preocupada, querendo descobrir porque o marido voltou a sorrir e não reclama mais dos seus descuidos para com ele. É o cara moderno que queria a transa a três e notou que várias vezes, por descuido, o garoto de programa acabou chamando a esposa pelo seu nome verdadeiro – ainda que ela exigisse que fosse totalmente desconhecido (melhor é fingir que não se percebeu). São as pequenas vinganças, como a da jovem esposa, preterida cinicamente em função de uma amiga, que recebeu o maior e melhor pedaço de bolo no aniversário do seu marido. E o jeito foi dar, no dia de sua festa, para outrem, não só um pedaço de bolo... É o marido que tinha a mulher que todo homem sonhava, pois podia fazer tudo que quisesse, porque ela respeitava os seus prazeres, e, afinal, por que não dar umas voltinhas pelo bairro, quando a encontrou com o vizinho, e respeitar os prazeres dela?
Mas o primordial é que José Neres utilizou bem as referências que cita no início do livro e que reconhece como suas influências, caso, por exemplo, de Dalton Trevisan, um craque da narrativa curta. E é porque acredito que o autor se encontrou no contexto da narrativa curta que acho importante falar deste livro. Porque este é o livro do texto conciso, do padrão culto, mas coloquial, simples, da linguagem e, principalmente, um livro cujos maiores méritos estão em conseguir ser uma bem condensada crônica de costumes da atualidade, mesclando, sem intelectualismos enjoados e forçados, lirismo, bom humor e uma boa pitada de drama e sutil erotismo.
Claro que reprovo alguns textos, que não passam de piadas já batidas, e que, não fossem as próprias intenções despretensiosas do autor para com o livro, talvez não devessem estar nele. Claro que no âmbito da narrativa curta este ainda é um livro de aprendizado, que pode apontar para o autor um caminho a explorar e, para nós, leitores, a esperança de mais e melhor. Mas isto não compromete a qualidade do livro como um todo, do conjunto de contos. Este é um livro de muito bons textos, este é o livro do suave lirismo de “Óleos Aromáticos” e “Um Simples Botão”, do sutil erotismo e humor de “Feliz Aniversário”, “O Desconhecido” e “Deveres”, do realismo de “Escambo” e “O Banho”, mas, principalmente, este é o livro de “Atrás da Porta”, um conto sintético, de um simbolismo caricatural, quase um conto de fadas às avessas, um excelente conto que, na prática, fotografa o drama nosso contemporâneo de todos os dias, da solidão, da opressão, do descaso e do desamor. 50 Pequenas Traições, na sua despretensão e simplicidade, insidiosamente - como obrigatoriamente teria de ser - põe em foco suas indagações e vai conseguir aquilo a que todo livro deve aspirar: ser lido.










SEMPRE LITERATURA


NOSSOS EVENTOS LITERÁRIOS


José Neres


            Embora nem sempre recebam a divulgação adequada e merecida, no Maranhão há diversos eventos de cunho literário que movimentam o cenário cultural do Estado. A seguir, há uma relação de alguns deles e suas características básicas.
Festival Geia de Literatura – Na última semana de agosto, as pessoas interessadas no mundo das letras têm um encontro marcado com livros, palestras e diversos tipos de manifestações artísticas na cidade de São José de Ribamar. O Festival é uma iniciativa do Instituto Geia, capitaneado pelo seu presidente Jorge Murad, e tem como objetivo maior divulgar os valores culturais maranhenses para as novas gerações e para todos os interessados em literatura. Durante três dias, crianças e adultos convivem com o mágico mundo das letras e com um universo todo voltado para as palavras escritas.
Feira do Livro de São Luís – Quase no final do ano, a população ludovicense tem a oportunidade de visitar a Feira do Livro, que, em 2010, chega a sua quarta edição. Além de favorecer um contato direto com autores e obras de diversos gêneros, a Feira é também uma oportunidade de o grande público entrar em contato direto com escritores renomados como Ariano Suassuna, Afonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Moacyr Scliar e Antônio Carlos Secchin, só para citar alguns dos convidados das edições anteriores. Todos os anos, o evento homenageia um escritor que tenha contribuído para a solidificação das letras maranhenses no âmbito nacional. Depois de Josué Montello, Arthur Azevedo e Ferreira Gullar, na quarta edição, o patrono do evento será o jornalista e romancista José Louzeiro.
Café Literário – É um projeto da Secretaria de Estado da Cultura levado adiante pelos esforços da professora, escritora e acadêmica Ceres Costa Fernandes. A ideia central é reunir autores maranhenses que discutem sua obra ou outro assunto relacionado às letras. Na primeira edição houve a presença dos escritores José Ewerton Neto e José Neres, que explanaram a respeito de suas obras e sobre a importância da leitura. No segundo encontro, os escritores Lourival Serejo e Mundinha Araújo, que falaram sobre a obra de Aluísio Azevedo
Salimp – O Salão do Livro de Imperatriz é um evento que já está solidificado no calendário literário maranhense. Uma vez por ano, a cidade recebe milhares de pessoas em busca de livros, palestras e outras atividades literárias. Estudantes, professores, escritores e o público em geral têm a sua disposição milhares de obras e a oportunidade de encontrar-se com personalidades do mundo das letras que vêm de outros recantos do país para prestigiarem ou palestrarem na cidade maranhense.
Manhã Literária – A cada semestre uma universidade particular de São Luís promove um evento chamado Manhã Literária. Sob o comando da professora Marineis Merçon, os alunos de Direito e de outros cursos reúnem-se para discutir uma obra literária e seu autor. Para enriquecer a discussão, a instituição convida alguns especialistas na área de literatura, que participam de uma mesa-redonda sobre o livro em foco. Após as palestras, o público é brindado com duas encenações teatrais baseadas na obra lida, com a participação dos alunos envolvidos no projeto.
Encontros de Estudantes – Embora o objetivo maior dos encontros de estudantes de Letras não essa esse, eles servem também para promover a produção literária local. Durante os eventos, os organizadores sempre convidam alguns escritores, seja para lançamento de livros, seja para palestras ou mesmo discussão das obras dos autores convidados.
            Em cada uma dessas festas literárias, o público, a cidade e a própria literatura saem renovados, na certeza de que o mundo das letras é um universo mágico e sem fim.

sábado, 10 de julho de 2010

MÚSICA



Ouvindo Clayber Rocha


José Neres


Confesso o que é evidente. Sou um completo analfabeto no que diz respeito à prática musical. Não sei tocar um instrumento. Minha voz é desafinada e evito até mesmo bater palmas em aniversários de crianças com medo de que meu descompasso rítmico atrapalhe a evolução das palmas alheias. Mas ser analfabeto musical não é sinônimo de ter surdez melódica. Pelo contrário. Considero-me até bastante exigente com o que ouço. Não faço de meus pobres ouvidos um repositório de lixo mercadológico disfarçado de música.
            Assim, com a um analfabeto das letras não lhe pode ser negado o direito de opinar sobre a beleza de um poema, de uma narrativa ou mesmo de comentar sobre o enredo de uma peça teatral, reservo-me o direito de apreciar a magnífica  voz de um Emílio Santiago, o tom altissonante de uma Mercedes Sosa, a potência vocação de um Tim Maia, a magistral rouquidão de um Louis Armstrong, a simplicidade melódica de um Paulo Diniz, a energia de uma Alcione ou a sonora percussão de um Papete ou de um Hermeto Paschoal.
            Também não posso deixar de admirar a capacidade musical de Clayber Rocha, esse jovem músico que dedilha o violão com a alma e que tira das cordas todos os ritmos possíveis e imagináveis. Não se trata, porém, apenas de uma pessoa com técnica e inspiração, Clayber também possui a capacidade de reunir em um mesmo CD um repertório de primeira linha e de intenso bom gosto.
            Em sua nova obra, Clayber Rocha não se contenta em tocar e também solta a voz, cantando em francês, português, espanhol e inglês, o que ocorre apenas esporadicamente nos outros álbuns lançados anteriormente. Mas ele não deixa de lado sua marca mais conhecida: o talento com o violão. Às vezes, passa a impressão de que há dezenas de outros instrumentos compondo o cenário musical composto pelo intérprete, mas, para quem tem talento, uma voz e um violão tomam a dimensão de uma verdadeira orquestra.
            Neste momento, escrevo ouvindo a interpretação de “Love me tender”, música que foi imortalizada na voz de Elvis Presley e que ganha um toque especial com o artista maranhense. Volto um pouco e me impressiono a virtuosa artística demonstrada em Carinhoso. Finalizo com as empolgantes notas de Yo Camelo, de Adriah Esteves, uma canção que faz bem a qualquer ouvido.
            Como disse antes, sou um analfabeto musical, mas não sou surdo e gosto do que tem qualidade. Talvez o único defeito do CD seja que ele tenha uma curta duração e que na hora que começa a empolgar, acaba. Mas vale a pena.

   Contato com o músico: clayberrochaok@hotmail.com
Músicas do CD

1.      Je L’aime à Mourir
2.      Carinhoso
3.      Corcovado
4.      Pequena bailarina
5.      Love me tender
6.      Introduction / Asturias
7.      Aquarela do Brasil
8.      Ponteio
9.      Yo Camelo
10.  Mediterranean Sundace


sábado, 3 de julho de 2010

REVISTA LITTERA

Acaba de ser lançada a edição digital da Revista Littera, do Curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão, com textos de diversos autores. Convido a todos a uma visita nas páginas da revista, para prestigiar o trabalho de nossos pesquisadores.
Clique AQUI e vá para a página da revista.